Governos que candidatam seus países para sediar a Copa do Mundo frequentemente prometem crescimento econômico, geração de empregos, desenvolvimento de infraestrutura e aumento do turismo. É o chamado efeito Copa. Mas o que a ciência econômica diz sobre essas promessas? A Copa do Mundo realmente impulsiona o crescimento dos países que a sediam — ou é mais marketing político do que realidade econômica?

Para o contexto dos custos de sediar o torneio, confira quanto custa sediar uma Copa do Mundo. Aqui, o foco está especificamente no impacto macroeconômico — o que os dados e estudos mostram sobre o legado econômico real das Copas do Mundo.

O que os estudos mostram

A maioria dos estudos econômicos sérios sobre o impacto de grandes eventos esportivos — Copas do Mundo, Olimpíadas, Super Bowls — chega a uma conclusão similar: o impacto econômico real é significativamente menor do que as projeções pré-evento e frequentemente não justifica os investimentos realizados.

Um estudo da Universidade de Oxford analisou todos os Jogos Olímpicos desde 1960 e descobriu que 100% deles excederam o orçamento inicial, com uma média de 172% acima do previsto. Estudos sobre Copas do Mundo chegam a conclusões similares sobre o desempenho real versus as promessas iniciais.

A razão principal é o que economistas chamam de efeito substituição: o dinheiro gasto por turistas da Copa frequentemente substitui gastos que os turistas regulares fariam na mesma época, em vez de adicionar dinheiro novo à economia. Além disso, muitos residentes locais evitam as cidades durante a Copa por causa do congestionamento e preços elevados — reduzindo o consumo doméstico.

O caso da África do Sul (2010): legado misto

A África do Sul investiu US$ 3,6 bilhões na Copa de 2010 e projetou um impacto econômico de US$ 12 bilhões. O resultado real foi bem mais modesto — estudos posteriores estimaram um impacto líquido positivo de cerca de US$ 500 milhões a US$ 1 bilhão no PIB sul-africano, com o turismo ficando bem abaixo do projetado.

Por outro lado, a Copa acelerou investimentos em infraestrutura de transporte — especialmente o sistema de BRT (Bus Rapid Transit) em Johannesburg — e melhorou significativamente a imagem internacional do país. Esses benefícios intangíveis são reais mas difíceis de quantificar em números de PIB.

O caso do Brasil (2014): custo alto, legado questionável

O Brasil investiu cerca de US$ 15 bilhões na Copa de 2014, com promessas de que o evento geraria US$ 70 bilhões em retorno econômico. A realidade foi bem diferente: o país entrou em recessão nos anos seguintes à Copa, parte dos estádios construídos ficaram subutilizados (os chamados elefantes brancos) e o retorno turístico ficou bem abaixo do projetado.

Os protestos de 2013 — quando milhões de brasileiros foram às ruas questionar os gastos com a Copa enquanto serviços básicos eram precários — mostraram que o custo político do evento foi igualmente alto. A lição do Brasil em 2014 é frequentemente citada em debates sobre a viabilidade de sediar grandes eventos esportivos em países em desenvolvimento.

O caso da Alemanha (2006): o exemplo de sucesso

A Copa de 2006 na Alemanha é frequentemente citada como o modelo de evento bem organizado com impacto econômico positivo real. Os investimentos foram proporcionais, os estádios já existiam (com pequenas reformas), o turismo superou as projeções e a imagem internacional da Alemanha melhorou significativamente — o país ficou conhecido mundialmente como um anfitrião eficiente e hospitaleiro.

O conceito de Sommermärchen (conto de verão, em alemão) — usado pelos próprios alemães para descrever aquela Copa — capturou algo real: a Copa de 2006 criou um clima de otimismo e coesão social na Alemanha que teve efeitos positivos além dos números econômicos.

A Copa 2026 e o modelo americano

A Copa 2026 nos EUA, Canadá e México é projetada para ser a de maior retorno financeiro da história. Os EUA têm a vantagem de não precisar construir estádios — apenas adaptar arenas já existentes — e de ter o maior mercado de publicidade e patrocínio do mundo.

A FIFA projeta receitas superiores a US$ 11 bilhões para a Copa 2026 — a maior da história. Uma parcela significativa desse valor ficará nos países-sede em forma de impostos, gastos de turistas e atividade econômica local. Para entender como esse dinheiro impacta o Brasil mesmo sem ser sede, confira o artigo sobre o impacto econômico da Copa 2026.