Endrick não marcou contra o Panamá. Mas saiu do Maracanã com a declaração mais marcante da noite. "Estou muito agradecido. Fico feliz porque isso gera dúvidas na cabeça do Carletto", disse o atacante do Real Madrid após o 6 a 2 que encerrou a preparação do Brasil no país antes do embarque para os Estados Unidos. Em uma frase, o jovem de 18 anos resumiu o paradoxo que Ancelotti vai carregar até o dia 13 de junho: os reservas jogaram melhor que os titulares.
O que aconteceu no segundo tempo contra o Panamá
A história do jogo tem dois capítulos bem distintos. No primeiro tempo, o Brasil escalado com os prováveis titulares — Vinicius Jr., Raphinha, Casemiro, Bruno Guimarães — foi a campo e construiu um 2 a 1 discreto, com atuação irregular. Vinicius brilhou individualmente com um gol e uma assistência, mas o conjunto não convenceu. Ancelotti reconheceu depois que o time estava pouco compacto e a solidez defensiva deixou a desejar.
No intervalo, o técnico italiano fez dez substituições simultâneas — uma das maiores apostas táticas que um treinador pode fazer num amistoso preparatório. Entrou um time completamente diferente, com Endrick formando um trio ofensivo com Rayan e Igor Thiago, e Lucas Paquetá como meia enganche atrás. O resultado foi uma goleada de quatro gols no segundo tempo: Rayan anotou seu primeiro gol pela Seleção principal, Igor Thiago converteu um pênalti que ele mesmo ganhou ao pressionar o goleiro adversário, e Paquetá e Danilo Santos completaram o festival.
Endrick não marcou, mas foi peça central no funcionamento do sistema. Sua pressão alta, a disposição para correr sem bola e a inteligência para criar espaços para os companheiros foram os elementos que definiram o estilo da segunda etapa. "Não marquei, mas ajudei a marcar — correndo e em alguns gols também", avaliou o próprio jogador com precisão cirúrgica.
O dilema que Ancelotti criou para si mesmo
O problema para Ancelotti é matemático e filosófico ao mesmo tempo. Ele tem um elenco com qualidade suficiente para montar dois times competitivos. O time B que jogou o segundo tempo contra o Panamá não apenas venceu por 4 a 0 na etapa — jogou com mais intensidade, mais coletividade e criou mais perigo do que o time A na primeira metade.
Mas transformar essa performance num argumento para mudar o time titular é um salto que Ancelotti não deve dar sem mais evidências. O Panamá baixou o ritmo no segundo tempo — o próprio técnico admitiu isso. E um amistoso com foco em rotação não é o mesmo que um jogo decisivo de Copa do Mundo, onde o adversário entra em campo para vencer e não para testar variações táticas.
O técnico disse após o jogo que seu time titular não está "100% definido" e que está aberto a mudar peças e até o sistema tático, se necessário. É a linguagem de um treinador que quer manter as opções abertas e, ao mesmo tempo, preservar o ambiente interno — nenhum jogador pode se sentir descartado antes da estreia.
Endrick: o perfil que complica a vida de Ancelotti
O que torna Endrick particularmente difícil de ignorar não é só o que faz com a bola — é o que faz sem ela. O atacante de 18 anos tem uma leitura de jogo e um compromisso defensivo que a maioria dos centroavantes jovens leva anos para desenvolver. Sua temporada cedido ao Olympique de Lyon foi decisiva nesse processo: saiu do Real Madrid como promessa e voltou como jogador formado taticamente.
O quarteto titular de ataque que Ancelotti tem em mente — Vinicius Jr., Raphinha, Matheus Cunha e Luiz Henrique — é de altíssimo nível, como o próprio Endrick reconheceu. Mas cada um desses quatro jogadores tem características específicas que podem ou não se encaixar perfeitamente contra todos os adversários. Contra times que fecham o bloco defensivo e saem em transição — como Marrocos, o adversário da estreia — o perfil de Endrick, que pressiona linhas e ocupa espaços, pode ser mais eficiente que o de um camisa 9 mais estático.
Casemiro e o trabalho invisível de Igor Thiago
A noite também teve outras vozes relevantes. Casemiro, que jogou o primeiro tempo e marcou o 2 a 1 de cabeça, foi honesto sobre o desempenho inicial: "Tivemos algumas dificuldades." O capitão reconheceu que o Brasil melhorou na segunda etapa, mas ressaltou que o rival também diminuiu o ritmo — uma leitura equilibrada que evita tanto o excesso de autocrítica quanto o triunfalismo fácil.
O volante destacou o "trabalho sujo" de Igor Thiago, atacante do Brentford que foi um dos protagonistas da virada mesmo sem aparecer nas estatísticas mais visíveis. A pressão alta de Igor Thiago sobre o goleiro do Panamá gerou o primeiro gol de Rayan — o goleiro adversário errou com os pés pressionado pelo brasileiro — e depois o pênalti que Igor Thiago mesmo converteu. É o tipo de contribuição que não aparece no gol, mas que Ancelotti reconhece e valoriza.
Rayan, por sua vez, anotou seu primeiro gol pela Seleção principal numa jogada de extrema qualidade técnica. Aos 19 anos, o atacante do Bournemouth demonstrou que tem personalidade e qualidade para funcionar em momentos decisivos. Junto com Endrick e Igor Thiago, os três formaram no segundo tempo um ataque jovem e intenso que deu uma alternativa clara ao plano A de Ancelotti.
O que vem agora: o amistoso contra o Egito como teste definitivo
O amistoso contra o Egito em Cleveland, no dia 6 de junho, é a próxima oportunidade de Endrick mostrar que merece mais minutos — ou até uma vaga no time inicial. Ancelotti provavelmente vai usar uma formação próxima ao time titular no primeiro tempo e dar rodagem ao banco na segunda etapa, repetindo o esquema do Panamá.
O Egito, com Mohamed Salah e Omar Marmoush como referências ofensivas, é o adversário mais difícil dos quatro amistosos preparatórios — e simula bem o estilo de jogo de Marrocos, o primeiro adversário do Brasil na Copa. Se Endrick e o time reserva repetirem a intensidade do segundo tempo do Panamá contra um adversário de mais qualidade, o dilema de Ancelotti vai ficar ainda mais agudo.
E o próprio Endrick deixou claro que é exatamente isso que quer fazer: gerar dúvidas, criar dilemas, tornar a decisão de Ancelotti mais difícil — porque um técnico com boas opções no banco é um técnico mais forte dentro de campo. Para acompanhar como vai se resolver esse dilema até a estreia, o roteiro dos 11 dias até a estreia tem o dia a dia completo da Seleção nos Estados Unidos. E os jogos do Brasil na Copa 2026 têm o calendário completo com datas e horários.


