Mauro Cézar Pereira é um dos jornalistas esportivos brasileiros com maior histórico de cobertura internacional de futebol. Acompanhou Copas do Mundo, finais de Champions League e grandes ciclos de seleção. Quando ele tem uma opinião sobre o Neymar e a CBF, vale ouvir — não porque seja necessariamente a opinião correta, mas porque é fundamentada, articulada e representa um olhar experiente sobre o futebol de alto rendimento.
De Budapeste, onde cobria a final da Champions League, Mauro Cézar foi direto ao ponto sobre a convocação de Neymar e o que ela representa para o Brasil na Copa 2026.
A convocação que nunca fez sentido, segundo Mauro Cézar
Para Mauro Cézar, a questão não começa com a lesão — começa muito antes. O jornalista foi categórico: Neymar não consegue jogar em alto nível há anos. Momentos eventuais de qualidade existem, mas não são o padrão consistente que uma convocação para Copa do Mundo deveria exigir.
O dado mais revelador que Mauro trouxe não é técnico nem médico — é contextual: o Santos terminou a fase de grupos da Copa Sul-Americana atrás do Recoleta, clube uruguaio que jogou as duas partidas como visitante. O grande feito de Neymar pelo Santos no período recente foi contribuir para a vitória sobre o Juventude que evitou o rebaixamento do clube à Série B. Para um jogador convocado para Copa do Mundo, é um nível de impacto muito abaixo do esperado.
A última vez que Neymar foi um destaque real de nível mundial? Segundo Mauro Cézar, foi em 2015 — há 11 anos — quando o MSN (Messi, Neymar e Suárez) estraçalhou a Juventus na final da Champions League em Berlim. Neymar foi artilheiro da competição e marcou na final. Isso foi em 2015. Estamos em 2026.
Ancelotti decepcionou ao ceder ao 'obaoba'
A crítica de Mauro Cézar a Ancelotti é diferente da crítica ao Neymar — e mais interessante. Ele não questiona o talento histórico do jogador. Questiona a coerência do técnico italiano, que durante todo o ciclo de convocações repetiu que só levaria jogadores 100% fisicamente preparados.
Quando a convocação de Neymar foi anunciada em meio a uma festa da CBF que Mauro descreveu como show de horrores, o técnico que prometeu critérios claros cedeu à pressão do momento. Para o jornalista, isso foi uma decepção — não porque Neymar não mereça respeito, mas porque Ancelotti é grande demais para se submeter a esse tipo de pressão institucional e de mídia.
A comparação que Mauro usou é precisa: esperar o Zico machucado em 1986, esperar Ronaldo em 2002 — tudo bem. São jogadores em plena capacidade de impacto, que justificam a espera. Esperar o Neymar de 2026, num estágio de carreira completamente diferente, é outra coisa. A lógica da exceção só funciona quando o jogador ainda é capaz de justificá-la em campo.
CBF subserviente: o diagnóstico mais duro
A palavra que Mauro Cézar usou para descrever o comportamento da CBF foi subserviente. A entidade máxima do futebol brasileiro, diante de um jogador que não foi convocado nenhuma vez por Ancelotti antes, organizou uma festa de convocação que parecia validar uma narrativa de grandiosidade que os resultados recentes não sustentam.
O efeito prático: o Brasil entra na reta final de preparação para a Copa cercado de polêmica sobre um único nome, enquanto a comissão técnica precisaria estar 100% focada nos adversários da fase de grupos. Como detalhado no artigo sobre o conflito de diagnósticos Santos x CBF, essa situação era previsível e poderia ter sido evitada com um exame da CBF antes da convocação.
A narrativa já está formada para qualquer resultado
Mauro Cézar concordou com a análise de que a opinião pública sobre a Copa já tomou forma antes de uma bola rolar: se o Brasil ganhar e Neymar contribuir, Ancelotti será gênio. Se o Brasil perder, Ancelotti será cobrado por ter convocado um jogador lesionado em detrimento de opções em plenas condições.
Essa estrutura narrativa não é nova no futebol brasileiro — é o mesmo ciclo que se repete desde que o Brasil deixou de vencer Copas com regularidade. A diferença desta vez é que a decisão é de um técnico estrangeiro de altíssimo prestígio, que tinha capital político para resistir às pressões e escolheu não resistir.
O que acontece dentro de campo a partir de 12 de junho vai responder as perguntas que o debate atual não consegue. Os jogos do Brasil na Copa 2026 mostram quando o Brasil entra em campo — e é lá que a história vai ser escrita, não nas coletivas de imprensa.
Fonte: debate publicado no canal Jovem Pan Esportes — YouTube


