A abertura da Copa do Mundo 2026 tinha tudo para ter o México e seus craques como protagonistas. E teve — os anfitriões venceram a África do Sul por 2 a 0 no lendário Estádio Azteca, na Cidade do México. Mas quem saiu do jogo como o nome mais comentado nas redes sociais do mundo inteiro não foi nem Julián Quiñones, autor do primeiro gol da Copa, nem Raúl Jiménez, que marcou o segundo. Foi um brasileiro de Goiás vestido de preto, no meio do gramado: o árbitro Wilton Pereira Sampaio.

Entre uma câmera na cabeça que o fez parecer um ciborgue, três expulsões que estabeleceram um recorde histórico e um inglês hesitante que foi imediatamente comparado ao lendário "the book is on the table" de Joel Santana, Wilton viveu uma das noites mais folclóricas e, ao mesmo tempo, mais técnicas da história recente da arbitragem brasileira em Copas. Aqui está tudo o que aconteceu.

Um marco histórico: o primeiro brasileiro a apitar uma abertura de Copa

Antes mesmo de a bola rolar, Wilton Pereira Sampaio já havia entrado para a história. Esta foi a primeira vez que um árbitro brasileiro foi escalado para comandar a partida de abertura de uma Copa do Mundo. É um reconhecimento que coroa uma carreira longa e consistente — o goiano já está em sua terceira Copa.

Em 2018, na Rússia, Wilton atuou como árbitro de vídeo (VAR). Em 2022, no Catar, apitou quatro partidas, incluindo o duelo das quartas de final entre Inglaterra e França. Agora, em 2026, recebeu a honraria máxima para um árbitro: o jogo inaugural do maior torneio de futebol do planeta, diante de mais de 80 mil torcedores num dos estádios mais icônicos da história do esporte.

Sua bagagem é impressionante e justifica a escalação. Ao longo da carreira, Wilton apitou centenas de jogos do Campeonato Brasileiro, dezenas de partidas de Copa do Brasil, Copa Sul-Americana, Libertadores, além de Copa América, eliminatórias e até a Copa das Nações Árabes em 2021. É um currículo de quem tem experiência em todos os níveis e contextos do futebol mundial. A Copa de 2026 veio para coroar essa trajetória.

Wilton não estava sozinho na missão brasileira. Os assistentes Bruno Pires e Bruno Boschilia, também brasileiros, completaram a equipe de arbitragem de campo, enquanto o colombiano Nicolás Gallo ficou responsável pelo VAR. E o Brasil ainda tem outros dois árbitros no torneio: Ramon Abatti Abel e Raphael Claus, nomes conhecidos do futebol nacional.

Três expulsões: o recorde que ninguém esperava na abertura

O dado que transformou a noite de Wilton em algo histórico foi o número de cartões vermelhos. Foram três expulsões ao longo dos 90 minutos — o maior número já registrado em uma partida de abertura de Copa do Mundo. Dois jogadores da África do Sul e um do México deixaram o campo mais cedo.

A primeira expulsão veio logo aos quatro minutos do segundo tempo. Sphephelo Sithole — curiosamente, o mesmo jogador que havia errado na saída de bola que originou o primeiro gol mexicano — fez uma falta em Brian Gutiérrez na entrada da área, impedindo uma chance clara de gol, e recebeu o vermelho direto. Foi uma decisão tecnicamente correta: o atacante mexicano sairia livre na cara do goleiro Ronwen Williams.

A segunda expulsão, aos 39 minutos da etapa final, foi a mais polêmica e a que gerou o momento viral da noite. Themba Zwane foi flagrado em uma agressão — uma cotovelada no rosto de Alvarado. Wilton não viu o lance em tempo real, mas foi chamado pelo VAR, revisou a jogada no monitor e confirmou a expulsão.

A terceira veio nos acréscimos. O zagueiro mexicano César Montes foi expulso por derrubar um jogador sul-africano que avançava em direção ao gol, configurando, na avaliação da arbitragem, mais uma clara chance de gol impedida de forma irregular.

O inglês "à la Joel Santana" que virou meme mundial

Aqui está o momento que dominou as redes sociais e fez Wilton ser comentado até fora do Brasil. Após confirmar a expulsão de Zwane no VAR, o árbitro precisou usar o sistema de som do estádio para comunicar a decisão ao público presente — um protocolo adotado pela FIFA para dar transparência às revisões de arbitragem.

O problema foi a execução. Ao anunciar a decisão em inglês para os mais de 80 mil torcedores no Azteca, Wilton hesitou na pronúncia, e o momento foi imediatamente capturado e compartilhado. A comparação que tomou conta do X (antigo Twitter) foi inevitável: o brasileiro foi apelidado de "Joel Santana da arbitragem".

A referência tem uma camada extra de ironia que poucos perceberam de imediato. Joel Santana, o ex-treinador brasileiro famoso pelo inglês improvisado — eternizado em frases como "the book is on the table" durante entrevistas —, foi justamente o técnico que comandou a seleção da África do Sul antes da Copa de 2010. Ou seja: o brasileiro falando inglês difícil para jogadores sul-africanos que não entenderam nada repetiu, de forma cômica, uma cena que já tinha um precedente histórico envolvendo exatamente esses dois países.

Os próprios jogadores da África do Sul pareceram não compreender o que Wilton dizia, o que só ampliou o efeito cômico e rendeu uma enxurrada de memes. Mas é importante separar o folclore da técnica: o inglês hesitante não tirou o mérito da atuação. Wilton aplicou corretamente as decisões mais difíceis do jogo e manteve o controle de uma partida que poderia ter saído do controle.

A câmera na cabeça que o fez parecer um ciborgue

Antes mesmo das expulsões e do inglês, Wilton já tinha viralizado no primeiro tempo por outro motivo: uma câmera grande acoplada à sua cabeça. A tecnologia de câmera na arbitragem já havia sido usada em outras competições, mas a versão utilizada na Copa 2026 parecia maior e mais aparente do que o habitual.

A transmissão oficial mostrou lances de destaque "filmados" diretamente pela câmera de Wilton, oferecendo aos telespectadores a perspectiva exata do árbitro no momento das jogadas. A imagem ficou visivelmente melhor do que em testes anteriores da tecnologia. Nas redes, usuários de diversos países compararam o brasileiro a ciborgues e personagens de ficção científica, divertindo-se com o visual futurista.

O recurso, ainda que tenha virado piada estética, é parte de um movimento da FIFA para aproximar o torcedor das decisões de arbitragem e dar mais transparência ao processo — algo que, no caso das expulsões revisadas no VAR, faz diferença real na compreensão pública das decisões.

A imprensa inglesa critica: "anarquia" e "ridículo"

Nem todo mundo aplaudiu a atuação de Wilton. A imprensa inglesa, em particular, foi dura com o árbitro brasileiro — em parte por uma rivalidade histórica que vem de 2022, quando Wilton apitou a eliminação da Inglaterra para a França nas quartas de final do Catar, partida em que decisões dele foram contestadas pelos ingleses.

Em análise publicada pela Sky Sports, o jornalista Sam Blitz afirmou que o confronto terminou em "anarquia" após o apito final e classificou duas das três expulsões como controversas. Segundo ele, apenas um dos três vermelhos foi inquestionável, enquanto os outros dois beiravam o "ridículo". Na BBC Radio 5 Live, o ex-atacante inglês Chris Sutton criticou especificamente a expulsão de César Montes nos acréscimos.

É uma leitura legítima, ainda que carregada do contexto da rivalidade de 2022. A arbitragem moderna é cada vez mais rigorosa com lances de impedimento de chance clara de gol e com agressões — e as três expulsões de Wilton se enquadram tecnicamente nessas categorias. O debate sobre se foram "excessivas" ou "corretas" é exatamente o tipo de discussão que acompanha toda Copa do Mundo, e Wilton, com sua experiência, certamente já esperava esse tipo de reação.

O saldo final: folclore e competência na mesma noite

No fim das contas, Wilton Pereira Sampaio saiu da abertura da Copa 2026 com um saldo curioso e positivo. De um lado, entrou para a história como o primeiro brasileiro a apitar um jogo inaugural de Mundial e estabeleceu o recorde de expulsões em uma partida de abertura. De outro, virou meme nacional e internacional pelo inglês hesitante e pela câmera futurista.

O que importa para a avaliação técnica é que ele mostrou personalidade, aplicou corretamente as punições mais difíceis do jogo e conseguiu controlar uma partida que tinha todos os ingredientes para descambar. Para um árbitro, terminar uma abertura de Copa do Mundo com a partida sob controle, mesmo com três expulsões, é sinal de competência — não de descontrole.

O folclore do inglês "à la Joel Santana" vai acompanhar Wilton por um bom tempo, e provavelmente ele vai rir disso junto com os torcedores. Mas o registro mais importante da noite é que um árbitro brasileiro abriu a maior Copa do Mundo da história com autoridade. Para acompanhar todos os próximos jogos do torneio e os duelos da Seleção Brasileira, os jogos do Brasil na Copa 2026 têm o calendário completo com datas, horários e locais. E para conhecer o palco da abertura, o artigo sobre o estádio onde o Brasil estreia e pode ser campeão mostra a grandiosidade das arenas desta Copa.