A Copa do Mundo FIFA é hoje o maior evento esportivo do planeta, assistida por bilhões de pessoas em todos os continentes. Mas poucos sabem que o torneio que paralisa o mundo a cada quatro anos levou décadas para sair do papel — e que sua criação foi resultado de disputas políticas, rivalidades continentais e a visão obstinada de um único homem: Jules Rimet.

A história de como surgiu a Copa do Mundo é tão fascinante quanto as próprias competições — cheia de recusas, ameaças de boicote, travessias oceânicas e decisões que moldaram o esporte mais popular do mundo. Para entender onde chegamos, é preciso entender de onde viemos. A história e formato da Copa do Mundo dá o contexto geral do torneio, mas a história de sua criação merece um capítulo próprio.

Os primeiros torneios internacionais de futebol

A primeira partida internacional de futebol da história aconteceu em Glasgow, em 1872, entre Escócia e Inglaterra — um amistoso que terminou 0 a 0. O primeiro torneio internacional, o British Home Championship, foi organizado em 1884 e reunia as quatro seleções britânicas. Para aquela época, era o máximo em competição internacional de futebol.

O futebol começou a se espalhar pelo mundo no final do século XIX, especialmente através dos trabalhadores e marinheiros britânicos que levavam o esporte para países da América do Sul e Europa continental. Com o crescimento da popularidade, a necessidade de uma organização internacional se tornou evidente — e em 21 de maio de 1904, foi fundada a FIFA (Fédération Internationale de Football Association) em Paris, com representantes de sete países europeus.

O futebol nos Jogos Olímpicos

Antes da Copa do Mundo, o principal palco do futebol internacional eram os Jogos Olímpicos. O futebol foi incluído no programa olímpico de 1900 em diante (com exceção de 1896 e 1932), mas com uma restrição fundamental: somente jogadores amadores podiam participar. Isso excluía os melhores atletas, que na Europa já eram profissionais.

Em 1909, o empresário britânico Thomas Lipton organizou o chamado Troféu Sir Thomas Lipton, disputado em Turim, com equipes representando suas nações. O torneio é frequentemente citado como o primeiro World Cup não oficial. Em 1914, a FIFA assumiu o controle do futebol olímpico e passou a organizá-lo como um "Campeonato Mundial Amador" — um passo importante rumo ao torneio profissional que viria depois.

Os torneios olímpicos de futebol de 1920 (Antuérpia), 1924 (Paris) e 1928 (Amsterdã) foram dominados pelas seleções sul-americanas, especialmente Uruguai e Argentina — o que revelou ao mundo que o futebol havia se tornado verdadeiramente global e que os europeus não eram mais os únicos protagonistas.

Jules Rimet e o nascimento da ideia

Jules Rimet, presidente da FIFA desde 1921, foi o grande visionário por trás da Copa do Mundo. Inspirado pelo sucesso dos torneios olímpicos, ele acreditava que o futebol merecia uma competição própria, independente das Olimpíadas e aberta a jogadores profissionais. Sua convicção enfrentou resistência interna na FIFA e nas federações nacionais, mas Rimet era teimoso na medida certa.

Em 28 de maio de 1928, no Congresso da FIFA em Amsterdã — realizado durante os Jogos Olímpicos daquele ano —, foi aprovada oficialmente a criação de um Campeonato Mundial de Futebol. A decisão foi histórica: pela primeira vez, o futebol teria sua própria Copa do Mundo, separada dos Jogos Olímpicos e aberta a profissionais.

A escolha do Uruguai: uma sede improvável

Com o torneio aprovado, veio a primeira grande disputa: quem seria o país-sede da primeira Copa do Mundo? Europa e América do Sul apresentaram candidaturas. A escolha recaiu sobre o Uruguai — uma decisão que parecia improvável dado que o país ficava a uma semana de viagem de navio da Europa.

Os argumentos a favor do Uruguai eram poderosos: o país era bicampeão olímpico (1924 e 1928) e comprometeu-se a arcar com as despesas de viagem e hospedagem de todas as seleções participantes, além de construir um estádio inteiramente novo para o evento — o Centenário, em Montevidéu, inaugurado em 1930 em comemoração aos 100 anos da independência uruguaia.

Mesmo assim, a escolha gerou protestos europeus. Nenhuma seleção europeia confirmou presença até dois meses antes da Copa. Foi necessária a intervenção pessoal de Jules Rimet para convencer as federações europeias a enviarem equipes — e no fim, apenas quatro países europeus fizeram a travessia: França, Bélgica, Iugoslávia e Romênia.

13 de julho de 1930: o dia que tudo começou

A Copa do Mundo teve seu pontapé inicial em 13 de julho de 1930, com dois jogos acontecendo simultaneamente: França 4 x 1 México e Estados Unidos 3 x 0 Bélgica. O primeiro gol da história da Copa foi marcado pelo francês Lucien Laurent, assistido por Ernest Libérati — um momento que ficou na história mesmo que pouca gente soubesse que estava presenciando algo histórico naquele dia.

Treze seleções participaram dessa primeira edição: sete da América do Sul (Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, México, Peru e Paraguai), quatro da Europa (França, Bélgica, Iugoslávia e Romênia), mais Estados Unidos e... a seleção anfitriã, o Uruguai. O torneio durou 18 dias e terminou com a final em Montevidéu, diante de quase 93 mil pessoas, com vitória do Uruguai sobre a Argentina por 4 a 2.

Estava criado o maior evento esportivo do planeta. A Copa do Mundo que Jules Rimet sonhou tornou-se realidade — e o que começou com 13 seleções e uma sede improvávelchega em 2026 com 48 seleções e três países como anfitriões. Para conhecer os recordes da Copa 2026 desta edição histórica, o contraste com 1930 é ainda mais impressionante.

As primeiras dificuldades: guerra, distâncias e boicotes

Os primeiros torneios da Copa do Mundo foram marcados por dois obstáculos enormes: as dificuldades de viagens intercontinentais e os conflitos políticos. Em 1934, na Itália, e em 1938, na França, poucas seleções sul-americanas fizeram a viagem — o Brasil e Cuba foram os únicos sul-americanos em 1934. O Uruguai, campeão em 1930, boicotou as duas edições europeias em retaliação ao boicote europeu de 1930.

A Segunda Guerra Mundial cancelou as edições de 1942 e 1946 — as únicas vezes na história que a Copa não foi realizada. O torneio só voltou em 1950, no Brasil, quando então 13 seleções participaram de um torneio que terminou com o traumático Maracanazo — a derrota do Brasil para o Uruguai que ficou marcada como a maior tragédia do futebol brasileiro. Toda essa história está detalhada em curiosidades e mistérios da Copa do Mundo.

De ideia improvável a fenômeno mundial

Em menos de 100 anos, a Copa do Mundo passou de um torneio improvisado com 13 seleções para o maior evento esportivo do planeta, assistido por mais de 5 bilhões de pessoas. A visão de Jules Rimet — que morreu em 1956, tendo visto apenas as primeiras edições de seu torneio se consolidar — foi além do que qualquer pessoa poderia imaginar naquele congresso em Amsterdã em 1928.

Em 2026, a Copa chega à sua 23ª edição com 48 seleções, 104 jogos e três países-sede. Os favoritos ao título da Copa 2026 ao título carregam o legado de todas as Copas anteriores — e a história que Jules Rimet começou há quase 100 anos segue sendo escrita.