A partida entre Coreia do Sul e Tchéquia, que encerrou a primeira rodada do Grupo A da Copa do Mundo 2026, ficou marcada pela virada emocionante dos asiáticos por 2 a 1. Mas, fora das quatro linhas, o jogo no Estádio Akron, em Guadalajara, chamou atenção por outro motivo bem menos festivo: setores visivelmente vazios nas arquibancadas e a presença do presidente da FIFA, Gianni Infantino, acompanhando de perto o confronto. O contraste com o Estádio Azteca lotado, na abertura horas antes, foi gritante — e levanta perguntas relevantes sobre público e logística na maior Copa da história.
O contraste entre o Azteca lotado e o Akron com vazios
No mesmo dia, a Copa 2026 ofereceu duas imagens opostas. Na Cidade do México, o lendário Estádio Azteca recebeu mais de 80 mil torcedores apaixonados para a abertura entre México e África do Sul, com uma atmosfera descrita por todos os presentes como impressionante. Algumas horas depois, em Guadalajara — também no México —, o Estádio Akron exibia um cenário diferente, com lacunas evidentes nas arquibancadas durante Coreia do Sul x Tchéquia.
A diferença tem explicações lógicas, mas nem por isso deixa de chamar atenção. A partida de abertura envolvia a seleção anfitriã, com apelo máximo para o público local. Já o duelo entre Coreia do Sul e Tchéquia, embora válido pelo mesmo grupo, não tinha a mesma capacidade de atrair a torcida mexicana ao estádio — especialmente num horário de transmissão que, na Europa, caía na madrugada.
Ainda assim, lugares vazios em jogos de Copa do Mundo são sempre um ponto sensível para a FIFA, que vende o torneio como um evento de demanda global e ingressos disputados. A imagem de arquibancadas com falhas em pleno Mundial gera questionamentos sobre precificação de ingressos, distribuição de público e a real atratividade de confrontos entre seleções de menor apelo comercial nas fases iniciais.
O desafio do público numa Copa com 48 seleções e três países
A Copa 2026 é a primeira da história com 48 seleções, distribuídas em jogos espalhados por três países — Estados Unidos, México e Canadá — e 16 cidades-sede. Essa expansão, embora aumente o alcance global do torneio, também traz desafios logísticos inéditos para encher estádios em todas as partidas.
Com mais jogos e mais sedes, a concentração de torcedores se dilui. Nem toda partida da fase de grupos vai ter o apelo de um jogo do time da casa ou de uma potência tradicional do futebol. Confrontos entre seleções como Coreia do Sul e Tchéquia, por mais qualidade técnica que ofereçam — e este jogo ofereceu, com direito a golaço de Hwang In-beom —, naturalmente atraem menos público local do que duelos envolvendo anfitriões ou favoritos.
Há também o fator das distâncias continentais. Diferentemente de Copas realizadas em um único país, a edição de 2026 exige que torcedores se desloquem por enormes distâncias entre cidades-sede. Isso encarece e dificulta o acompanhamento presencial de múltiplos jogos, o que pode contribuir para o esvaziamento de partidas consideradas secundárias na primeira fase.
Infantino na plateia: a FIFA de olho no espetáculo
A presença de Gianni Infantino, presidente da FIFA, acompanhando Coreia do Sul x Tchéquia em Guadalajara não passou despercebida. O dirigente máximo do futebol mundial circula pelos estádios da Copa monitorando de perto não apenas o desempenho esportivo, mas toda a operação do torneio — incluindo questões como a ocupação das arquibancadas, a experiência do torcedor e a imagem que o evento projeta ao mundo.
Para a FIFA, a Copa 2026 é um marco: a maior da história em número de seleções, jogos e países envolvidos, com expectativa de cerca de 6 milhões de torcedores presentes ao longo de toda a competição. Garantir que essa ambição se traduza em estádios cheios e atmosferas vibrantes em todas as partidas — e não apenas nos jogos dos anfitriões — é um dos grandes desafios de gestão do evento.
Os lugares vazios em Guadalajara são, nesse sentido, um sinal de alerta precoce que a entidade certamente vai querer corrigir nas próximas rodadas, seja com ajustes de preço, campanhas de incentivo ou melhor distribuição de ingressos. A imagem de um Mundial com público irregular é o tipo de narrativa que a FIFA prefere evitar.
O que a história mostra sobre público em Copas anteriores
Lugares vazios em fases de grupos não são exclusividade da Copa 2026. Em praticamente todas as edições recentes do Mundial, jogos entre seleções de menor apelo comercial registraram ocupação abaixo da capacidade máxima, especialmente em horários menos convidativos ou em sedes distantes dos grandes centros. A diferença é que a expansão para 48 seleções multiplica o número desses confrontos "secundários" na primeira fase.
Por outro lado, a experiência mexicana tende a ser favorável à FIFA no longo prazo. O México é um dos países mais apaixonados por futebol do mundo, e a expectativa é que, à medida que o torneio avança e a tensão aumenta, mesmo os jogos sem a seleção da casa atraiam público crescente. A primeira rodada costuma ser a de menor ocupação justamente porque a competição ainda está se aquecendo e muitos torcedores estrangeiros chegam aos países-sede apenas nas fases decisivas.
Vale lembrar que o Estádio Akron, casa do Chivas de Guadalajara, é uma das arenas mais tradicionais do futebol mexicano e tem capacidade para mais de 45 mil espectadores. Encher esse espaço para um jogo entre Coreia do Sul e Tchéquia, sem a presença de um time mexicano ou de uma potência europeia tradicional, seria um desafio em qualquer Copa do Mundo da história.
A qualidade em campo compensou as falhas na arquibancada
Apesar do cenário fora de campo, é importante registrar que o espetáculo dentro das quatro linhas não decepcionou. Coreia do Sul e Tchéquia entregaram um jogo de Copa do Mundo de verdade: a Tchéquia abriu o placar com Krejcí de cabeça, a Coreia buscou a virada com um golaço de cavadinha de Hwang In-beom e o gol decisivo de Oh Hyeon-gyu, e a partida teve até gol anulado por impedimento na reta final. Emoção do começo ao fim.
Esse contraste — arquibancadas com falhas, mas jogo de alta qualidade — talvez seja a melhor síntese do desafio da Copa 2026. O torneio tem potencial esportivo de sobra para entregar grandes espetáculos. A questão é se a estrutura, a logística e a precificação vão conseguir levar público à altura desses espetáculos a todos os 16 estádios, em todas as 104 partidas.
Os torcedores que estavam no Akron, mesmo em número menor, presenciaram uma das viradas mais bonitas da primeira rodada. E os que assistiram pela TV, mesmo de madrugada na Europa, viram um gol que, nas palavras da imprensa portuguesa, "não merecia ser de madrugada". O futebol entregou. Resta à organização garantir que o público acompanhe o ritmo.
Para acompanhar todos os jogos, resultados e a caminhada da Seleção Brasileira na Copa 2026, os jogos do Brasil na Copa 2026 têm o calendário completo. Veja também a análise da virada da Coreia do Sul sobre a Tchéquia e o perfil de Hwang In-beom, o herói do golaço.


