A Seleção Brasileira enfrenta um cenário de crise que não era esperado com tanta intensidade apenas um mês antes da convocação final para a Copa do Mundo de 2026. Estevão, considerado o sucessor natural de Neymar no futebol brasileiro, sofre uma lesão muscular grave que o coloca fora da temporada europeia e torna sua presença no Mundial "muito improvável", segundo apurações internas. Essa ausência do atacante do Chelsea reposiciona completamente o quebra-cabeça tático de Carlo Ancelotti e reabre uma porta que muitos acreditavam fechada: a possibilidade de Neymar retornar à Seleção.
A lesão que mudou tudo: quase ruptura muscular
No dia 18 de abril de 2026, Estevão sofreu uma lesão na coxa direita durante partida do Chelsea contra o Manchester United. O problema pareceu inicial — ele saiu de campo aos 16 minutos, mas os primeiros testes não alaramaram tanto Chelsea quanto CBF. O cenário mudou drasticamente na segunda-feira seguinte, quando novos exames revelaram a verdadeira gravidade: uma "quase ruptura" do músculo, classificada como lesão grau 4.
A ESPN apurou que pessoas próximas ao jogador definiram a chance de Estevão retornar a tempo de ficar à disposição de Ancelotti como "muito pequena". O atacante teria menos de dois meses para atingir o nível de performance necessário para uma Copa do Mundo — em teoria, impossível para uma lesão dessa magnitude.
O técnico dos Blues, Liam Rosenior, relatou ter visto Estevão "chorando" no vestiário. O jovem, com apenas 18 anos, vinha vivendo seu melhor momento: 36 partidas pelo Chelsea com oito gols e quatro assistências. Pela Seleção, cinco gols em 11 jogos — números que apontavam para um futuro brilhante. Mas agora esse futuro corre riscos.
O que Estevão fazia que ninguém mais faz
Para entender por que a ausência de Estevão é tão problemática, é necessário observar o que ele faz dentro de campo — e o que falta em alternativas para substituí-lo.
Estevão é um atacante de características muito específicas: dribla em espaço curto com precisão, tem inteligência de passe excepcional e funciona como um armador ofensivo quando necessário. Em um 4-2-4, o sistema que Ancelotti parece preferir, Estevão ocupava a lateral direita com liberdade de se deslocar para o centro, criar diagonais curtas e servir companheiros que entram em movimento.
Essa capacidade de temporizar jogadas — aquele "passo atrás" para armar — é praticamente inexistente entre os atacantes brasileiros disponíveis. Luís Henrique, por exemplo, é mais de arrancadas longas de 50 metros com a bola. Endrick é mais direto e vertical. Raphinha e Martinelli são laterais de velocidade que chegam à linha final. Nenhum deles, naturalmente, ocupa o espaço que Estevão ocupava.
O dilema de Ancelotti: Neymar ou Paquetá?
Com uma vaga aberta — aquela que seria de Estevão — Ancelotti enfrenta uma decisão que vai além do futebol. É uma questão tática, política e emocional.
Lucas Paquetá é o nome que ganha espaço com a lesão. O meio-campista do Flamengo vem tendo bom desempenho e naturalmente poderia preencher aquela vaga como um segundo volante ou como um terceiro meio-campista que contribui na defesa. Paquetá tem mobilidade, corpo atlético e comprometimento defensivo — qualidades que Neymar não possui.
Mas existe outra possibilidade: Neymar. O camisa 10 do Santos está fora das convocações desde 2023, relegado ao banco em suas poucas aparições no ciclo. Sua ausência recente foi intencional — questão de condição física, não de desmerecimento técnico. Com Estevão removido da equação, Ancelotti poderia, teoricamente, incluir Neymar como um terceiro armador que ofereceria passes para criar espaço para Vini Júnior e os demais atacantes.
O técnico Carlo Ancelotti admitiu que pode chamar o camisa 10 do Santos caso ele esteja em condições físicas. A questão é se Neymar conseguiria estar "em condições físicas" até a convocação, marcada para 18 de maio.
A complicação tática: por que um 10 não resolve tudo
Colocar Neymar ou Paquetá como um armador adicional parece simples em tese, mas cria problemas práticos imensos.
Se Ancelotti optar por um 4-3-3 — saindo do 4-2-4 que favorece Estevão — ele precisaria puxar Vini Júnior para uma função mais centralizada de número 10. O problema: Vini não é um jogador que faz "essa ida e volta" do armador. Quando Vini vai buscar a bola, ele tende a sair do jogo ofensivo, não retorna com fluidez como faz Martinelli, por exemplo.
Isso criaria um vazio defensivo. Se Neymar estivesse na meia-lua como "9", Vini como "10", você teria dois atacantes pouco comprometidos com a recomposição defensiva. Martinelli, que volta bem, e Raphinha, que também oferece segurança, estariam ocupados nas laterais. O Brasil recomporia com cinco defensores, não com quatro — já uma mudança tática grave.
Além disso, se Neymar entra, alguém sai. Provavelmente Martinelli. Aí você perde a capacidade de rotação que a Seleção tem entre seus dois laterais ofensivos.
Por que Paquetá é mais seguro que Neymar
Aqui está a verdade tática: Lucas Paquetá, do Flamengo, também é outro nome que pode ganhar espaço, já que tem se destacado com a camisa rubro-negra nos últimos jogos — são quatro gols nos últimos sete jogos.
Paquetá oferece algo que Neymar não oferece: versatilidade defensiva e capacidade de "voltar mil vezes", como expressam os analistas. O meio-campista do Flamengo consegue mover-se pela meia-lua, recuar para armar, ou até ocupar a lateral quando necessário. Sua mobilidade permite que o Brasil mantenha o sistema 4-2-4 com mais segurança.
Com Paquetá, Ancelotti não precisa reformular seu sistema. Ele apenas adiciona um jogador com mais ritmo e capacidade de circulação no meio-campo. A defesa permanece segura, o ataque mantém sua mobilidade.
Com Neymar, tudo muda. E nem sempre mudança é bom quando você está em rodagem na reta final.
O fator Neymar: emocional, não apenas tático
Mas existe algo que vai além da análise tática pura. Neymar é Neymar. O atacante lidera o ranking de artilheiros da Seleção com 79 gols em 128 jogos, mesmo sem ser convocado desde 2023.
A possibilidade de uma "volta de Neymar" para a Copa do Mundo de 2026 traz uma dimensão emocional que nenhuma análise estatística consegue capturar. É a volta do rei. É redenção. É esperança.
Mas isso também carrega riscos imensos. Neymar não foi convocado por uma razão: condição física. Se ele voltar agora, será direto na convocação final, sem qualquer integração gradual ao grupo. Pela primeira vez em 28 anos, o Brasil chamaria um jogador direto para a Copa sem participação no ciclo de preparação.
Neymar terá apenas nove partidas para tentar assegurar presença na convocação. E mesmo que jogue bem, a falta de compreensão com o grupo pode ser prejudicial em um torneio tão curto e intenso como a Copa do Mundo.
O veredito: mais provável que Paquetá, mas Neymar não está descartado
A lesão de Estevão não determina quem será convocado, mas abre o caminho. O Ancelotti enfrenta um trilho com três possíveis destinos:
Cenário 1 (Mais provável): Lucas Paquetá ganha a vaga. O sistema 4-2-4 é mantido. A Seleção segue com Martinelli, Raphinha, Vini Jr e Mateus Cunha como os quatro atacantes principais. Defesa mantida. Segurança garantida.
Cenário 2 (Possível): Neymar é convocado. O Brasil toma um risco. Ancelotti aposta que a experiência e o carisma de Neymar podem resolver o problema tático. O sistema é reformulado. A integração é apressada.
Cenário 3 (Menos provável): Um outro atacante — Igor Thiago, Hendrick, Rayan — ganha espaço. A Seleção mantém a estrutura, apenas rotaciona os nomes.
Independente de qual cenário aconteça, a verdade é clara: Estevão era peça chave, não apenas em termos de números, mas em termos daquilo que oferecia tacitamente. Seu espaço no campo será preenchido. Mas o jogo da Seleção mudará — e essa mudança é inegavelmente mais frágil que o plano original.
A convocação oficial de Ancelotti acontecerá no dia 18 de maio. Até lá, o Brasil espera não apenas pela recuperação de Estevão, mas também pela definição de qual direção seu ataque seguirá na Copa do Mundo.


