Carlo Ancelotti vai sair da Copa do Mundo de 2026 como herói ou como o técnico mais criticado da história da Seleção Brasileira. Não existe meio-termo. A natureza das decisões que ele está tomando — e das que ainda vai tomar — é assim: ou funciona e ele entra para o panteão dos maiores da Copa, ou não funciona e o Brasil vai cobrar a conta por décadas.
Essa é a realidade que está se formando conforme a Copa se aproxima, e ela tem uma lógica interna poderosa. Ancelotti não é um técnico qualquer — sua chegada ao Brasil após toda a novela com a CBF, detalhada em Ancelotti e a CBF, já foi por si só um evento histórico. Mas ter o melhor técnico do mundo não resolve os buracos estruturais que o Brasil vai carregar para os Estados Unidos em junho.
O Brasil que vai à Copa: grandioso e incompleto ao mesmo tempo
Existe uma contradição fascinante no elenco brasileiro para 2026: o time tem jogadores que estão entre os cinco melhores do mundo em suas posições — e ao mesmo tempo tem lacunas que qualquer técnico de elite europeu apontaria como problemas sérios. As duas coisas são verdade simultaneamente, e é essa tensão que torna a Copa 2026 tão imprevisível para o Brasil.
No campo dos ativos: Vinicius Jr. disputou o prêmio de melhor jogador do mundo nos últimos dois anos consecutivos — e para uma parcela significativa de especialistas, o merecia em ambas as edições. Rodrygo é um jogador de Champions League que decide jogos quando precisa. A dupla de zaga formada por Marquinhos e Gabriel Magalhães — ambos do PSG, finalistas da Champions — é possivelmente a melhor dupla de zagueiros entre todas as seleções participantes. Bruno Guimarães é um dos melhores volantes do futebol europeu. Alisson Becker foi por anos consecutivos eleito o melhor goleiro do mundo.
Cinco ou seis jogadores no topo absoluto da prateleira mundial. Isso não é pouco — é muito. É o suficiente para ganhar uma Copa do Mundo se tudo funcionar.
Mas o Brasil tem buracos. Dois deles nas posições que qualquer sistema tático exige com competência: as laterais. O Brasil de 2026 não tem laterais de elite para disputar um torneio de altíssimo nível. Os jogadores disponíveis são funcionais — mas não são jogadores que colocaríamos numa lista dos melhores do mundo em suas posições. E dependendo do adversário, essa fragilidade pode ser explorada de formas que nenhuma qualidade individual de Vinicius ou Rodrygo consegue compensar.
A aposta tática de Ancelotti: o contra-ataque que divide opiniões
Aqui está o centro da discussão — e o ponto onde Ancelotti está fazendo uma escolha que vai contra décadas de tradição futebolística brasileira.
Ancelotti é um treinador reativo por natureza. Seu Real Madrid dos últimos anos foi campeão da Champions sendo um time que cede a posse de bola para o adversário, se organiza defensivamente e sai em velocidade quando recupera a bola. Funciona de forma extraordinária com jogadores de transição rápida — exatamente o que Vinicius Jr. e Rodrygo são. Não funciona bem quando o adversário se fecha e espera o Brasil atacar.
O problema é que na Copa do Mundo, especialmente nas fases eliminatórias, ninguém vai se jogar contra o Brasil. Marrocos vai se fechar. A Croácia vai se organizar defensivamente. Se o Brasil chegar às oitavas, qualquer adversário de peso vai usar exatamente a estratégia de esperar, se defender em bloco e tentar explorar os contra-ataques. O Brasil pode acabar precisando jogar como o adversário que Ancelotti normalmente enfrenta — sendo ele próprio o time que precisa ter a bola e criar.
Para essa situação — quando o Brasil precisar construir jogadas contra uma defesa fechada — Neymar tem um valor que nenhum outro jogador do elenco replica. A capacidade de segurar a bola, de criar no espaço curto, de fazer o drible impossível quando o time precisa de uma solução individual. O debate sobre Neymar na Copa 2026 está diretamente ligado a esse cenário tático específico: não como titular padrão, mas como a carta na manga para os momentos em que a velocidade de Vinicius e Rodrygo não resolve.
O dilema das laterais: a decisão mais radical do torneio
A questão das laterais está gerando discussões sérias nos bastidores da Seleção — e as soluções consideradas são radicais o suficiente para mudar completamente a cara do time.
Uma das hipóteses em discussão é que Ancelotti pode optar por uma linha de quatro zagueiros — colocando jogadores naturalmente zagueiros nas posições de lateral, abrindo mão da função ofensiva das laterais em troca de solidez defensiva. É uma solução corajosa que reconhece honestamente o problema: se os laterais disponíveis não têm qualidade para jogar como laterais de um time que quer ganhar a Copa, talvez a solução seja não usar laterais.
Outra hipótese é o uso de três zagueiros, com os alas tendo mais liberdade ofensiva sem precisar cumprir função defensiva convencional. Esse sistema, que Ancelotti usa ocasionalmente no Real Madrid, permitiria proteger a largura defensiva com três centrais enquanto libera jogadores como Wesley ou Savinho para atacar pelas pontas sem preocupação defensiva excessiva.
O risco de qualquer dessas soluções é o mesmo: se não funcionar, a narrativa vai ser devastadora. O Brasil foi à Copa do Mundo sem laterais, jogou defensivamente com quatro ou cinco defensores e perdeu mesmo assim. Para um país que tem a identidade futebolística mais ofensiva do mundo, essa narrativa seria difícil de engolir. A história da Seleção Brasileira nas Copas não tem um único capítulo em que o Brasil foi campeão jogando de forma defensiva e reativa.
Por que Ancelotti pode conseguir o que outros não conseguiriam
Mas aqui está a grande ironia: talvez apenas Ancelotti tenha o capital político e a autoridade técnica para fazer escolhas tão radicais sem ser linchado antes do primeiro jogo.
Um técnico brasileiro que chegasse à Copa com quatro zagueiros e três volantes seria destruído pela imprensa antes mesmo de o torneio começar. A pressão por futebol ofensivo no Brasil é parte do DNA cultural do esporte no país — e um treinador nacional sem o prestígio de Ancelotti dificilmente sobreviveria ao debate público antes de provar que a estratégia funciona.
Ancelotti é diferente. Ele tem quatro títulos da Champions League, troféus nos principais campeonatos da Europa, e uma reputação construída ao longo de décadas que o protege de julgamentos precipitados. Quando Ancelotti faz uma escolha tática inusitada, o reflexo instintivo de especialistas é procurar a lógica por trás dela — não questionar a competência de quem a faz. Isso é capital simbólico que vale mais do que qualquer jogador convocado.
É exatamente por isso que a aposta de Ancelotti pode funcionar: porque ele tem credibilidade suficiente para executar uma ideia sem que a dúvida externa contamine o grupo antes de o jogo começar. Nos maiores técnicos da Copa do Mundo da Copa do Mundo, os que venceram com soluções inesperadas tinham exatamente esse tipo de autoridade.
O cenário em que o Brasil vence a Copa
Existe um caminho claro para o hexacampeonato — e ele passa por um time organizado defensivamente que sai em velocidade por Vinicius e Rodrygo, com Neymar como solução para os jogos em que essa fórmula não funciona.
Fase de grupos: o Brasil enfrenta Marrocos (estreia em 12 de junho), Croácia e Cameroun. Com a organização defensiva de Ancelotti e a capacidade de transição rápida, o Brasil deve avançar em primeiro. A qualidade da dupla Vinicius-Rodrygo decide jogos com uma única oportunidade — e Ancelotti sabe construir times que aproveitam ao máximo cada chance criada.
Oitavas e quartas: aqui a solidez defensiva vai ser testada. Dependendo do chave, o Brasil pode enfrentar Portugal, Argentina ou França nessas fases. Com a defesa formada por Marquinhos, Gabriel Magalhães e Alisson — possivelmente o tripé defensivo mais qualificado de todo o torneio — o Brasil pode entrar nesses jogos sabendo que sofrer um gol não é catástrofe se tiver Vinicius em campo.
Semifinal e final: é onde o técnico faz a diferença. Ancelotti chegou a seis finais de Champions League como treinador — ninguém mais na história. Preparar um time para uma semifinal ou final de Copa do Mundo não é diferente em essência de preparar o Real Madrid para uma final europeia. E nisso, simplesmente não há ninguém melhor no planeta.
O cenário em que o Brasil não vence
Mas existe também o outro caminho — o que nenhum torcedor quer imaginar mas que precisa ser considerado.
Se as laterais frágeis forem exploradas repetidamente, se o time se tornar previsível demais na transição, se a falta de um meia-armador clássico criar situações em que o Brasil não consegue criar contra defesas organizadas — aí a narrativa vai ser dura. O Brasil tem as lesões de craques para a Copa 2026 nos jogadores de criação que já reduziram as opções de Ancelotti antes mesmo do primeiro jogo.
E há a questão da expectativa. O Brasil chega a toda Copa do Mundo com o peso de ser o país do futebol, o pentacampeão, o eterno candidato ao hexa. Se o time sair nas quartas jogando de forma que torcedores não reconheçam como brasileira — sem beleza, sem protagonismo, sem gols — a crítica vai ser mais violenta do que se qualquer outra seleção tivesse o mesmo resultado.
Herói ou vilão: não existe meio-termo
É isso que torna a Copa 2026 do Brasil tão fascinante antes mesmo de começar. Ancelotti está tomando decisões táticas que são coerentes com sua filosofia e com os jogadores disponíveis — mas que criam uma aposta de alto risco em termos de identidade e expectativa.
Se funcionar: Ancelotti será o técnico que adaptou seu método para o Brasil, reconheceu os limites reais do elenco, usou as forças disponíveis de forma inteligente e conquistou o hexacampeonato que o Brasil espera desde 2002. Ele vai ser tratado como gênio — e com razão.
Se não funcionar: a narrativa vai ser que o melhor técnico do mundo chegou ao Brasil, ignorou a tradição ofensiva do futebol brasileiro, jogou de forma europeia com uma seleção que não é europeia, e saiu sem o título. O mesmo que teria acontecido com qualquer técnico mediocre, mas pior — porque o fracasso teve o nome mais brilhante possível.
Nos todos os campeões da Copa do Mundo, toda conquista foi feita por times com identidade clara e técnicos que tiveram coragem de defender suas ideias até o final. Ancelotti tem as duas coisas. Agora é esperar para ver qual narrativa vai prevalecer quando o apito final da Copa 2026 soar no MetLife Stadium em 19 de julho.
Para acompanhar o Brasil jogo a jogo na busca pelo hexa, confira os jogos do Brasil na Copa 2026 e o guia completo dos grupos da Copa 2026 desta edição histórica.


